3 Agouritmo

3.1 Algoritmo

  • Algoritmo:
    • Incrementar a discussão etimológica e definição de um algoritmo, com base no levantamento já realizado.
    • Discussão sobre ábaco e algorismo, incluindo:
      • “From Abacus to Algorism”, Gillian R. Evans (1977).

      • “Accounting and the examination: a genealogy of disciplinary power”,

        Hoskin e Macve (1986).

    • Pasquinelli (2023) Cap. 1, incluindo:
      • Aparência de confusão entre número e símbolo. Computação concebida usualmente diz respeito a algoritmos enquanto manipulação de símbolos sem considerar suas significações, vide Hofstadter (1979) e Hofstadter (1994). Não se trata de números, mas de quaisquer símbolos e regras de transformação dos mesmos.
    • Discussão sobre algoritmo em Falleiros (2024) págs. 85-89.
  • A produção da realidade pela padronização:
    • “Standards: Recipes for Reality”, Busch (2011).
  • “Algoritarismos”, Sabariego, Amaral, e Salles (2020) (grato à Alana pela recomendação).
  • Relação da Marca com Agouritmos – Rhatto (2024b): a amputação do extracionismo é um procedimento de marcação e remoção, vide Capítulo 2.

3.2 A Autorrealidade

3.2.1 Querer realizar

  • Agouritmos não representam “fatos essenciais” da “realidade”. São primeiro ficções na mente e na operação da maquinaria que, ao agirem, produzem o que é intencionado. São ficções como a propriedade privada ou o dinheiro, que existem nas mentes e em leis escritas mas que suas existências práticas só ocorrem porque tais leis tem sua aplicação forçada no mundo.

  • Discussão em Falleiros (2024) sobre teleologia, causalidade, finalismo e profecias autorrealizáveis.

  • Construção de causalidade.

  • Verdadização:

    • A produção da realidade jamais pode ultrapassar os limites físicos. Pode apenas reduzir a realidade, estreitá-la. Um humano não é essencialmente uma Máquina Universal de Turing, mas pode se comportar como uma caso instruído. Uma produção da realidade que reduza o humano a uma Máquina de Turing efetua uma diminuição efetiva da realidade.

    • A produção da realidade inscreve verdades nos corpos, mas sempre dentro de limitações da physis.

  • Profecia autorrealizável:

    • “The Self-Fulfilling Prophecy”, Merton (1948).

    • “Ensaios de sociologia das ciências”, Merton (2013).

    • Autorrealidade e loop causal; imprevisibilidade.

    • Tautologia: o universo se autorrealiza.

    • A profecia autorrealizável é uma espécie de “viagem no tempo” por fomentar um loop causa, porém isso tudo apenas ideologicamente, no plano dos discursos.

    • Isso é reforçado pela incompletude do método científico estrito, que se baseia na possibilidade de se reproduzir experimentos em condições controladas, sendo incapaz de resolver totalmente as cadeias causais dos fenômenos.

    • No plano psíquico, uma profecia autorrealizável é uma viagem no tempo bergsoniando criadora de um anel causal.

    • Dizemos “viagem” e “criadora” em termos figurativos. Um anel causal não é uma viagem no tempo no sentido de viagens que se iniciam, terminam e se deslocam numa única direção.

    • O anel é este: o futuro a ser realizado inspira a ação no presente que deve criá-lo. Nele, os meios não importam, somente o fim.

    • A mensagem de um futuro que ainda não existe inspira o presente a construí-lo.

    • Na perspectiva desta Teoria dos Estados, tempo é a percepção da transição entre estados num sistema. Da mesma maneira, a percepção se dá num sistema perceptivo que também transiciona no tempo: mudança exterior que acarreta em mudança interior.

    • O anel, ou loop causal, é uma correlação entre estados passados, presentes e futuros onde a relação de causa pode ser estabelecida em qualquer direção.

    • Noutras palavras, um anel causal somente ocorre nas situações de total reversibilidade dos processos.

    • Da nossa discussão anterior sobre entropia e irreversibilidade, temos que a reversão somente pode ocorrer num conjunto muito restrito de situações e mesmo assim na maioria das vezes com um dispêndio adicional de energia.

    • De modo que os anéis causais existem somente num tempo psicológico, onde alucinação de futuros imaginários se transformam na memória de um tempo porvir e profético que deve ser realizado mediante a ação do fiel.

      A operação autorrealizável é logicamente plausível, porém fisicamente improvável senão impossível.

    • A profecia autorrealizável é a causalidade do desastre, assim como a doutrina do choque é o modus operandi do capitalismo do desastre.

    • Prognóstico misturado (ou sorrateiramente disfarçado) no diagnóstico.

    • Ter cuidado com o que se acredita.

    • Uma vez tirei a seguinte mensagem num “biscoito da sorte”: “Acredite naquilo que você faz”, o que pode ser interpretado dentro do arcabouço da autorrealidade: “acredite naquilo que você produz, uma vez que aquilo que foi produzido torna-se real”.

    • Importante não fazer com que uma provável derrota se transforme numa profecia auto-realizável (ou numa self-defeating prophecy).

      Se nada fizermos, então a derrota estará garantida.

      Ou, como no dito usual: “o não nós já temos; resta lutar pelo sim”.

    • Profecia autorrealizável: exemplos:

      • Privatização após o intencional sucateamento de um sistema público, afirmando em seguida que tudo que é público é ineficiente.

      • Loop of Doom, por exemplo descrito em Y. Varoufakis (2017) e no filme “Adults in the Room”, de Costa Gavras, em aproximadamente 00:43:00.

    • Filmes “The Jacket” e “La Jetée”: loopholes no tempo e o sofisma da argumentação:

      O futuro não pode recusar ao passado os meios de sua própria sobrevivência.

      – La Jetée, aproximadamente 00:25:05

    • La Jetée, Marker (1962):

      • Torturado passa por exparimentações até morrer, enlouquecer ou colaborar para produzir o futuro desejado pelo aloz; então é descartado.

      • Há um trecho mencionando que o espaço é inatingível, sendo no tempo que devemos buscar respostas e recursos.

      • Tortura subterrânea em larga escala até alguém/natureza/futuro emitir a resposta compatível com os desígnios; que produza o futuro; é a própria caverna platônica da era pós-nuclear; extração do conhecimento e viagem temporal possibilitada pela memória de um evento marcante (trauma da morte futura/passada; felicidade inalcançável).

    • Filme “Tenet”, Nolan (2020):

      • Paradoxos da destruição do mundo.

      • Facção / serviço secreto milenarista do futuro almeja a destruição de toda existência (não só do mundo do futuro, como de todo o passado). Engendra um mecanismo capaz de colapsar o continuum, e que esperançosamente seria a semente de um novo tempo, de um novo começo, porém um começo que não leve ao mesmo fim (talvez apostando em uma condição inicial distinta produzida pela maneira como a iteração anterior do mundo “terminou”).

      • A fração / serviço secreto “Tenet”

      • As linhas de mundo (“wolrdlines”) de ambas as facções se entrecruzam em destinos fatalistas: mesmo que voltem no tempo, não conseguem mudar o destino, que já está traçado de acordo com todas as viagens no tempo passado já realizadas. “What happened happened”, o que passou passou tal como passou. Se o mundo ainda existe no tempo presente, é porque ele foi salvo, seja por uma ou outra facção.

      • A “manobra da pinça temporal” é a autorrealidade por excelência: o time azul que percorre o tempo na direção “usual” comunica ao time vermelho que voltará no tempo o que acontece, inclusive as ações tomadas pelo time vermelho para que este volte no tempo para realizar suas ações tais como elas já aconteceram.

      • Diálogo em Tenet, Nolan (2020) de 02:11:11 até 02:11:41:

        • Somewhere, sometime, a man in a crystalline tower throws a switch, and Armageddon is both triggered and avoided.

          Now time itself switches direction.

          The same sunshine we basked in will warm the faces of our descendants generations to come.

        • How could they wanna kill us?

        • Because their oceans rose and their rivers ran dry. Don’t you see? They have no choice but to turn back. We’re responsible.

      • O presente gera o futuro que depois tenta desfazê-lo, e para isso recorre a um processo que, na física de tal mundo hipotético, envolveria mudar a direção do próprio tempo tal como na alegoria platônica em Platão e Gregory (2009) sobre a Era de Zeus e a Era de Cronos.

      • A questão da agência está totalmente minada pela autorrealidade: se tudo já está destinado, decidido, então não há escolha de fato, o que o argumento do filme tenta resolver com o conceito de “instinto”: o instinto seria nada mais do que percorrer o fluxo do destino. O instinto seria oposto à escolha.

      • Há uma névoa intransponível de segredo e desconhecimento: não há como nenhuma personagem saber se está do “lado certo”, no fim das contas, ou se foi levada a agir pelo lado certo. É o mundo fatal da espionagem, full of unknowables. Em Nolan (2020) aproximadamente 02:10:25:

        • You fight for a cause you barely understand… with people you trust so little you’ve told them nothing.
    • Do documentário “Q: Into the Storm”, Episódio 6, entrevista com Joseph Uscinski, aproximadamente em 00:02:00, em referência aos prognósticos da teoria da conspiração “Q Anon”:

      If the stuff doesn’t come true, someone else is gonna try and make it come true.

  • Previsão de autorrealidade: Gramsci (1999) - Caderno 11 - § 15:

    § 15. O conceito de “ciência”. Colocar o problema como uma pesquisa de leis, de linhas constantes, regulares, uniformes, esta atitude está ligada a uma exigência, concebida de maneira um pouco pueril e ingênua, de resolver peremptoriamente o problema prático da previsibilidade dos acontecimentos históricos. Já que “parece”, por uma estranha inversão de perspectivas, que as ciências naturais fornecem a capacidade de prever a evolução dos processos naturais, a metodologia histórica foi concebida como sendo “científica” apenas se, e na medida em que, habilita abstratamente a “prever” o futuro da sociedade. Daí a busca das causas essenciais, ou melhor, da “causa primeira”, da “causa das causas”. Contudo, as Teses sobre Feuerbach já haviam criticado antecipadamente esta concepção simplista. Na realidade, é possível prever “cientificamente” apenas a luta, mas não os momentos concretos dela, que não podem deixar de ser resultados de forças contrastantes em contínuo movimento, sempre irredutíveis a quantidades fixas, já que nelas a quantidade transforma-se continuamente em qualidade. Na realidade, pode-se “prever” na medida em que se atua, em que se aplica um esforço voluntário e, desta forma, contribui-se concretamente para criar o resultado “previsto”. A previsão revela-se, portanto, não como um ato científico de conhecimento, mas como a expressão abstrata do esforço que se faz, o modo prático de criar uma vontade coletiva.

  • Logos, Tempo e Autorrealidade:

    • Logos platônico/aristotélico não tem tempo, assim como o ID? O princípio da não-contradição é incompatível com a passagem do tempo.

    • “Esta frase é mentirosa”, é incompatível com uma lógica sem tempo, mas se admitirmos turnos de interpretação teremos uma dia-lógica, um diálogo ou oscilador alternante entre os estados afirmados pelos dois níveis simultâneos de discurso existentes na frase.

    • Nível interno: afirmação de que a própria frase é mentirosa.

    • Nível externo: se a frase é verdeira ou mentirosa.

    • Há contradição entre os níveis segundo a lógica clássica! Se a frase é mentirosa (verdade interna), então ela é mentirosa (nível externo), indicando que é verdadeira (nível interno).

    • Admite-se ainda outros níveis, como os gramaticais (sintaxe, ordemação, concordância), cada um deles emitindo valores de verdade/mentira de acordo com regras arbitrárias.

    • As dialéticas e dialógicas introduzem turnos alternantes de “verdade” e “mentira” – termos aliás inapropriados pois indicam apenas distintos estados possíveis para um sistema.

    • Esses turnos podem ser associados à passagem do tempo, em componentes cíclicas (repetição de estados anteriores) e lineares (novos estados sucessivos).

    • No plano lógico, a profecia autorrealizável é um loop desses turnos: estado “anterior” e “posterior” estão interligados, criando um aspecto de Eternidade inevitável que perpassa ambos os estados

  • Autorrealidade:

    • Produzir dados que estejam de acordo com a predição.

    • Criação de situações com plausibilidade para a justificativa de causalidade aleatória!

    • Causalidade finalista, D’Arcy Thompson e Darwinismo, Gleick (1988) págs. 201-202.

    • Autorrealidade e método científico: “Ciência e Existência : Problemas Filosóficos da Pesquisa Cientifica”, Vieira Pinto (1979), incluindo discussão sobre finalidade.

    • Raciocínios e ações auto-realísticos.

  • Auto-realidade:

    • Conceito com o mesmo nome, concebido em paralelo mas com um ponto de contato com o de “auto-realidade” de Benito Maeso, in Maeso (2020).
  • Newcomb’s paradox:

    thought experiment involving a game between two players, one of whom is able to predict the future

    https://en.wikipedia.org/wiki/Newcomb%27s_paradox

  • Inversão de causalidade:

    • Os agouritmos sustentam-se na inversão da causalidade: a causalidade no plano do discurso apresenta-se como a inversão da causalidade da sequência dos acontecimentos.

    • As profecias auto-realizáveis são exemplos de causalidade invertida: dizem “fiquem tranquilos, continuem agindo como vocês estão agindo que a profecia se realizará”, quando a dita “profecia” só se realiza mesmo caso eles atuem dessa maneira.

    • No limite, a inversão da causalidade transforma-se numa causalidade circular, onde efeitos de causas anteriores passam a ser causas dos efeitos posteriores.

  • Se a gente pára pra criticar, essas teorias não páram em pé. MAS, de um modo perverso, elas são prefigurativas.

    E prefigurativas especialmente no sentido da profecia autorrealizável, que eu chamo de autorrealidade, que é uma viagem num tempo bergsoniano.

    Usalmente, enviamos mensagens do presente para o futuro. A ciência clássica da informação, na formulação de Shannon, é baseada nesse pressuposto implícito.

    MAS, para o fiel, o futuro que ainda não existe envia uma mensagem para ele – uma profecia –, que começa a se realizar a partir do momento que o fiel passa a usá-la como ponto de chegada, como utopia.

    O chamado “loop causal”, ou “causalidade circular” de um sistema cibernético – que ajusta constantemente sua ação no mundo para se manter ao redor de uma meta de estado para si e/ou para o mundo –, é então confundido com uma linearização profética em que o mundo será, misticamente e automaticamente, levado ao estado futuro desejado.

    A autorrealidade é a interpretação da causalidade circular de sistemas que afetam e são afetados pelo mundo como se a mudança do mundo ocorresse independentemente dessa afecção mútua.

  • Tipos de causalidade circular:

    • Primeiro tipo: sistema de feedback, onde o efeito da “rodada anterior” – ou do intervalo imediatamente anterior – é re-inserido como parte das causas que produzirá o próximo efeito.

    • Segundo tipo: é a “causalidade” auto-real, na qual o anseio por um dado efeito ou mesmo um “plano” é executado para produzir o efeito e realizar o plano-efeito-profecia.

  • Fatalitarismo: o totalitarismo produz uma realidade fatal que demanda e justifica um aparato totalitário.

  • “A fé move montanhas”: o primeiro efeito do pensamento autorrealista é a alteração do próprio modo de pensamento: a fé na mudança produz alterações na neuroplasticidade, e aí possivelmente está a base da maioria dos métodos de auto-ajuda. Por exemplo em Young (2019) Cap. XII - “The Mindset of Experimentation”.

  • “Quem semeia chuva colhe tempestade”.

  • Autorrealidade e lógica bayesiana. “Minha capacidade de influenciar o mundo é influenciada pela fé que tenho na minha influência no mundo”.

  • Cadeias causais enquanto sequências de enunciação dentro de paradigmas explicativos. Muda-se o paradima e um mesmo fenômeno é explicado através de outra cadeia causal. Muda-se o paradigma e até mesmo aquilo que é entendido como fenômeno passa a diferir.

  • “Causalidade invertida”.

  • “O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia 1”, Deleuze e Guattari (2011) págs. 43-44, 50-51:

    [I.4.3. O real e a produção desejante: sínteses passivas]

    Se o desejo produz, ele produz real. Se o desejo é produtor, ele só pode sê-lo na realidade, e de realidade. O desejo é esse conjunto de sínteses passivas que maquinam os objetos parciais, os fluxos e os corpos, e que funcionam como unidades de produção. O real decorre disso, é o resultado das sínteses passivas do desejo como autoprodução do inconsciente. Nada falta ao desejo, não lhe falta o seu objeto. É o sujeito, sobretudo, que falta ao desejo, ou é ao desejo que falta sujeito fixo; só há sujeito fixo pela repressão. O desejo e o seu objeto constituem uma só e mesma coisa: a máquina, enquanto máquina de máquina. O desejo é máquina, o objeto do desejo é também máquina conectada, de modo que o produto é extraído do produzir e algo se destaca do produzir passando ao produto e dando um resto ao sujeito nômade e vagabundo.

    O ser objetivo do desejo é o Real em si mesmo. 23 Não há forma particular de existência que se poderia denominar realidade psíquica.

    […]

    [I.4.7. O socius e o corpo sem órgãos]

    […] Só existe uma produção, que é a do real. […] O problema do socius tem sido sempre este: codificar os fluxos do desejo, inscrevê-los, registrá-los, fazer com que nenhum fluxo corra sem ser tamponado, canalizado, regulado.

  • “Celeiro de Terroristas”:

    • Autorrealidade: celeiro de terroristas é o celeiro de aterrorizados. Ou: celeiro de terroristas, curral de aterrorizados.

    • Celeiro: se não acharem os terroristas, eles mesmos vão produzi-los.

  • Cismogênese:

    • Cismogênese, uma espiral kármica, samsárica.

    • John Constantine de Garth Ennis: magia, poder e crença. Só funciona porque um número suficiente de pessoas acredita nela2.

    • O conceito de cismogênese é mencionado no texto sobre informação. Caso seja definido no texto sobre agouritmo, a referência no texto sobre informação precisa ser atualizada.

  • Falácias epistêmicas em três níveis operando como justificações para processos opressivos e expoliativos:

    • Explicações sobre como o “mundo”, a “natureza” ou o “universo” “operam”/“funcionam”, que mas que são proferidas como verdades sobre como a “natureza” “funciona”.

    • Relações do tipo “leis” para previsão e controle de sistemas, mas que são proferidas como verdades sobre como a “natureza” “funciona”. Conforme por exemplo a discussão em Sklar (1993), Cap 4 - Statistical Explanation, págs. 133-138.

    • Processos preditivos de autorrealidade, que forçam sistemas a determinados padrões comportamentais, mas que são proferidas como verdades sobre como a “natureza” “funciona”.

  • Efeito tautológico coletivo das autorrealizações:

    • Todo mundo usa Z porque todo mundo usa Z: a tautologia causal como resultado de um processo augorítmico exponencial.
  • A autorrealidade opera a auto-justificação. Exemplo: somente com a existência de “criminosos” é que se justifica sem muitos questionamentos as políticas repressivas e a existência da polícia. Portanto, o fomento de condições que obriguem grupos a atuarem como “criminosos” – isto é, a marginalização – ajuda em seguida a aceitação de repressão policial.

  • O fomento dessas condições precisa em si ser agourítmico. Não se trata de um governante anunciar que pretende estimular a existência de criminosos pra que seja necessária a existência de política. Isso seria identificado como absurdo. Os responsáveis pela agourítmica produtora do par polícia-criminosos só tem sucesso se não são identificados como responsáveis. As medidas auto-realizadoras também não podem parecer como tais. Tudo deve ser percebido como se fosse um andamento “natural” das coisas, ou seja, deve haver o que se chama de “negação plausível”. Os políticos e empresários responsáveis por estas auto-realizações precisam inclusive aparentar crença total nas profecias auto-realizáveis.

  • Para a autorrealidade funcionar, é imprescindível que não haja conexão histórica entre os acontecimentos. É preciso que o estado atual já auto-realizado seja tido como eterno e imutável, como um fato imediato, refletindo como as coisas sempre foram; e como sempre serão, caso as medidas agourítmicas não sejam aprofundadas. A autorrealidade opera melhor onde há apagamento da memórica histórica social.

  • Exemplo de processo de privatização:

    • Corte seletivo de impostos (beneficiando os mais ricos), alegando que o tributação reduz a competitividade do país.

    • Implica em corte de orçamento.

    • Implicando na piora dos serviços públicos.

    • O que abre a brecha para que se acuse os Estado ser ineficiente.

    • Com a continuidade do sucateamento dos serviços, por conta de cortes sistemáticos no orçamento, os serviços pioram ainda mais.

    • Impõe-se então um plano de privatização, afirmando que na iniciativa privada os serviços melhorarão.

    • Vendem-se empresas públicas a preço vil, muitas vezes através de financiamento público para “fomentar” a iniciativa privada.

    • Os serviços agora privatizados repentinamente “melhoram”, mas agora são pagos, e a população passa a pagar duplamente: impostos e tarifas dos serviços privados.

    • Se antes os serviços públicos não rendiam dividendos para o Estado, agora precisam dar retorno, e assim custam mais caro para população.

    • Comparativamente, o serviço privado parece melhor do que o serviço público sucateado, mas um serviço publico eficiente seria muito melhor.

    • Autorrealizou se a profecia de que um serviço privado é melhor do que o público. Mas é evidencia-se que um serviço público eficiente seria o melhor dos cenários.

    • Privataria, ou privatarização:

      • Eles sucateiam pra os amigos comprarem a preço vil, “na bacia das almas”.

3.2.2 Querer acreditar

  • Teoria da Coação/coerção:

    • O Double Bind de Gregory Bateson.
  • “Make believe” – “The act of pretending that what is imaginary is real”, https://en.wiktionary.org/wiki/make_believe

    Make believe – “de mentirinha”, que vira uma grande mentira ao pretender que o real é de uma maneira conveniente (para quem?).

    Make believe é um reflexo de “believe making”, da produção da crença que a realidade produzida é a única possível.

  • “Chaos magick”:

    Belief as a tool

    The central defining tenet of chaos magic is arguably the idea that belief is a tool for achieving effects.[42] In chaos magic, complex symbol systems like Qabalah, the Enochian system, astrology or the I Ching are treated as maps or “symbolic and linguistic constructs” that can be manipulated to achieve certain ends but that have no absolute or objective truth value in themselves.[citation needed] Religious scholar Hugh Urban notes that chaos magic’s “rejection of all fixed models of reality” reflects one of its central tenets: “nothing is true everything is permitted”.[12]

    https://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_magic#Belief_as_a_tool Acessado em 21/03/2023

  • Ideologia que faz a realidade3:

    Boas ideologias são, pois, como tatuagem ou ideia fixa: parecem ter o poder de se sobrepor à sociedade e gerar realidade. De tanto escutar, acabamos acreditando nesse país onde é bem melhor ouvir dizer do que ver.

  • Quanto mais um regime impõe sua “visão ideológica” de mundo, mais tortura ocorrerá. Vide 911, Guerra ao Terror e Guantánamo.

  • A realidade não tem tecido, a gente que tece um entendimento do que é real dentro de contigências reais.

  • O regime que produz subversivos que é o verdadeiro subversivo, não o revolucionário que não teve escolha a não ser lutar.

3.2.3 Falar é calar

  • Como a própria fenomenologia de Heidegger pode embasar essa produção. Segundo Terry Winograd (1987) pág. 35,

    Language is action. Each time you speak you are doing something quite different from simply ‘stating a fact,’ If you say “First we have to address the issue of system development” or “Let’s have somebody on the other side talk,” you are not describing the situation but creating it. The existence of “the issue of system development” or “the other side” is an interpretation, and in mentioning it you bring your interpretation into the group discourse. Of course others can object “That isn’t really an issue—you’re confusing two things” or “We aren’t taking sides, everyone has his own opinion” But whether or not your characterization is taken for granted or taken as the basis for argument, you have created the objects and properties it describes by virtue of making the utterance,

    Esta constatação em si não leva necessariamente à imposição da sua “vontade de fazer o real ser de uma dada maneira”: isto pode ocorrer desde que uma pessoa fale “mais alto” e consiga impor seu discurso.

    Nosso “modelo mental”, se podemos assim dizer, não é uma “representação objetiva” da realidade.

  • “Speech theory” – Terry Winograd (1987) – lida não só com a “produção” da realidade como com a mímica/enganação, por exemplo com o caso das “fake news”.

3.2.4 Provabilidade

  • Se é possível subscrever a inúmeras posturas em relação ao mundo, à vida etc que não apenas explicam mas produzem determinadas realidades, o que sobra?

    Lembrando de Kuhn, os critérios científicos por si só não excluiriam teorias que explicam – ou, podemos acrescentar: produzem – conjuntos de dados.

    É pela dinâmica através imbricação técnico-político-ética que vai definir, em jogo, a imposição de realidades prevalentes ou até a possibilidade de coexistência entre diversas concepções numa mesma comunidade humana.

  • Virilio (1994) págs. 22-23:

    But in multiplying ‘proofs’ of reality, photography exhausted it. The more instrumental photography became (in medicine, in astronomy, in military strategy . . . ) , the more it penetrated beyond immediate vision, the less the problem of how to interpret its products managed to emerge from the deja vu of objective evidence. And the more it reverted to the original abstraction of heliography, to its primitive definition, to that depreciation of solids whose ‘contours are lost’ (Niepce) and to the emphasis on point of view whose innovative power painters and writers like Proust had grasped. This drift of overexposed matter, reducing the reality-effect to the greater or lesser promptness of a luminous discharge, found a scientific explanation in Einstein’s ‘theory of viewpoint’. It was this theory that led to the Theory of Relativity and, in the long run, more or less destroyed anything connected with external proofs of a unique duration as a cogent principle for classifying events (Bachelard), the thinking of being and the uniqueness of the universe of the erstwhile philosophy of consciousness.

    […]

    Einstein took this reasoning to its logical conclusion by showing that space and time are forms of intuition that are now as much a part of our consciousness as concepts like form, colour, size and so on. Einstein’s theory did not contradict classical physics. It simply revealed its limits which were those of any science linked to man’s sensory experience, to the general sense of spatial relationships which the logistics of perception have been secretly undercutting since the

    […]

    This makes it easier to see why Einstein’s theory was banned, why efforts to popularise it and communicate it to a wider audience were so sporadic, ‘limiting and reducing the body of knowledge on the subject to a small, privileged group crushing the philosophical spirit of the people and leading to the gravest spiritual impoverishment’, the physicist wrote in
    1. By reminding us that ‘there is no scientific truth’, in the middle of a century crawling with engineers, Einstein remobilised what fifteenth-century poets and mystics like Cues called learned ignorance; in other words the presupposition of not-knowing and especially not-seeing which restores to every research project its fundamental context of prime ignorance. Also he did this at a time when the alleged impartiality of the lens had become the panacea of an image arsenal which arrogated to itself the ubiquitous, all-seeing power of Theos in the Judeo-Christian tradition, to such an extent that it seemed, at last, that the possibility was being offered of uncovering a fundamental structure of being in its totality (Habermas), of finally defeating fanatical beliefs of all kinds including a religious faith that would then be reduced to a vague, private concept.”
  • A partir do momento em que se sabe fabricar uma imagem, pode-se fabricar uma verdade: momento que produz memento.

  • Falseabilidade: profecia autorrealizável não é falseável pois seu “teste” é impositivo.

  • Autorrealidade: como vi uma vez num adesivo de caminhão se referindo a uma religião bem popular: “crer no incrível, ver o invisível e ter o impossível”.

  • “On proof and progress in mathematics”, Thurston (1994).

  • Produção da verdade em Foucault (saber-poder-verdade etc), incluindo:

    • Produção da verdade no texto “Soberania e Disciplina”, Foucault (1988) pág. 179-180.

3.2.5 Querer induzir

  • Fazer acontecer.

  • A indução de comportamentos… criação de gado humano, vulgo “usuários”.

  • Produção da realidade:

    • Um “make-believe” de segunda ordem.

    • “Wishful thinking”.

    • Viés de confirmação produzindo a confirmação do viés.

    • A realidade produzida não é qualquer realidade: deve haver um acoplamento reatroalimentar entre o que se deseja produzir e o que se produz; não basta querer que o mundo não possua gravidade se não se sabe como produzir essa realidade; a produção da realidade se dá então dentro das contingências físicas do mundo. Não basta um “wishful thinking” para que o querer seja poder: o querer está limitado pelas possibilidades construtivas dentro do real, do contrário teríamos “auto-irrealidades”.

    • Produção de realidade então significa tornar o mundo e as ideias do mundo compatíveis, seja ajustando as ideias, seja “ajustando” o mundo.

    • Psicografia (no filme The Great Hack): produção da realidade.

  • As profecias autorrealizáveis usadas na produção da realidade, apesar dos seus conteúdos não-racionais, estão sujeitas à critérios racionais de seleção para que sejam efetivas.

  • A produção da realidade não está aberta a qualquer realidade imaginada, senão àquelas viáveis de serem produzidas tecnicamente.

    Há então um critério de compatibilidade: pode haver “wishful thinking” ideológico, porém ele está restringo às contingência da implementação do devir profético.

    O que não exclui deixar parte da fantasia irrealizada numa expectativa de que ocorra em momento futuro.

    A “equação” ficaria assim: a realidade imediata ou próxima é produzida em consonância com a parte “factível” da ideoloia – que pode se tornar fato – enquanto profecia realizável, enquanto que a parte irrealizável da profecia é mantida suspensa ou se produzirá automaticamente após a modificação profetivamente empreendida da realidade atual.

  • Crença no que é possível afetando a ação, Neiman (2023):

    You need not study philosophical debates about the relations between theory and practice to know at least this: what you think is possible determines the framework in which you act. If you think it’s impossible to distinguish truth from narrative, you won’t bother to try. If you think it’s impossible to act on anything other than self-interest, whether genetic, individual or tribal, you’ll have no qualms about doing the same.

    There are many things philosophy is good for; one is uncovering the assumptions behind your most cherished views and expanding your sense of possibility. “Be realistic” sounds like common sense, but hidden behind it is a metaphysics that underlies many a political position, a whole set of assumptions about what’s real and what’s not, what’s doable and what’s imaginable. You can translate the advice to be realistic quite simply: lower your expectations. When you take such advice, what assumptions are you making about reality?

  • A profecia autorrealizável precisa ser plausível para seu público-alvo.

  • Foucault saber-poder (ou poder-saber?), tortura como espetáculo no Vigiar e punir (dicas do Fido e da Nahema).

  • Autorrealidade e brechas sistêmicas:

    • Das brechas que o sistema permite e oferece para que ocorram as brechas que o sistema quer e que justifiquem o recrudescimento.

    • Das brechas que oferecem perspectivas emancipatórias.

    • Muitas vezes, as brechas são ambíguas…

3.2.6 Formulação: Previsão e Predição

  • Consideremos agora um entendimento específico dos termos previsão, predição, fórmula e plano, levando em consideração a impossibilidade de previsões perfeitas e exatas do futuro.

  • A previsão, estritamente falando, não é a capacidade de “ver” acontecimentos que já estariam no futuro e tal como acontecerão, mas sim a capacidade de formular cenários possíveis do que pode acontecer e com algum indício de probabilidade. Ainda, previsões podem ou não considerar a ação dos previsores em cada cenário. Quando considera, chamaremos de predição.

  • Predição é a previsão de cenários contendo fórmulas consideradas necessárias para que o cenário de realize, ou seja, o que é necessário fazer para alterar um sistema para o cenário previsto.

  • A predição nem sempre é um processo direto e consciente. Previsões coalescem na mente das pessoas e as incentivam a produzir o mundo almejado, num processo auto-realizador.

  • E assim a previsão se torna predição. Cada cenário considera resultados de intervenções no mundo, predizendo resultados possíveis das nossas ações ou não-ações.

  • Esta também pode ser a diferença entre plano e predição. Podemos pensar num plano como o roteiro para a realização de um dos cenários, enquanto a predição é mais difusa e trata de um conjunto mais difuso de cenários.

  • Fórmulas para o caos são aquelas preditas para produzirem cenários abismais de Golpes de Estado. As ações que elas predizem podem envolver operações psicológicas que induzem setores da população a tomarem determinadas atitudes direcionadas à realização do plano. Preditar futuro é produzir presente. Cenários preditivos são cenários a serem potencialmente realizados.

  • Mundos-padrão. Conjunto de cenários futuros considerando a nossa inação. É um exercício onde fazendo a seguinte pergunta: se não fizermos nada, o que acontece?

  • Cenários de previsão do passado e visão do presente (conjunturas). A partir delas, prever e predizer futuros.

  • Mais no fim das contas, não se prevê futuros. Se constrói futuros, para além do (im)previsto.

  • Pré-visão: contemplar futuros que poder vir a ser presentes.

  • Pré-dição: dizer a alguém como agir para produzir o futuro que deve ser: o legislador platônico ao pé da cama, produzindo regras em tempo real para construír um futuro pré-programado.

  • Com a certeza da incerteza, podemos afirmar que existem algorítmos determinísticos e indeterminísticos.

  • Por exemplo qualquer algoritmo que dependa de um lance de dados.

  • O algoritmo continua sendo um conjunto de etapas predefinidas, mas algumas ou todas essas etapas envolvem uma “decisão” ou uma “entrada” baseada num processo mecanicamente imprevisível.

  • Aquela personagem, o Duas Caras, opera como se fosse um limite desse tipo de algoritmo, tentendo a fazer ter todas as suas escolhas decididas por cara ou coroa. Evidente que no limite isso envolveria até decidir quais decisões ele deveria tomar, o que travaria completamente a personagem, e que talvez deixasse de ser uma forma de ação algorítmica.

  • O que tenho feito é diferenciar o que seria “previsão” de “predição”. É uma distinção tênue mas fundamental.

  • Prever é tentar dizer um resultado, sem influenciá-lo diretamente.

  • Predizer envolve produzí-lo: dizer de antemão como um resultado será. Um algoritmo que prediz é um agouritmo. Ele produz um estado futuro do mundo.

  • “Visão” não no sentido estrito dos órgãos visuais (ópticos), senão da faculdade de percepção, isto é, perceber futuros eventuais.

  • “Dição” não no sentido específico da fala fonada por voz moduladora de ondas sonoras mecânicas, mas na capacidade de enunciação de futuros a serem construídos.

  • Previsão: consulta de futuro.

  • Predição: solicitação de futuro.

  • Previsão e projeção em (smil2023?) Cap. 7.

  • “Autonomous Nature: Problems of Prediction and Control From Ancient Times to the Scientific Revolution”, Merchant (2015).

3.2.7 Racialização

  • Exemplo de agouritmo: produção da realidade racializada, Carneiro e Fischmann (2005) pág. 29:

    Persistimos na perspectiva cunhada por Antônio Sérgio Guimarães para quem a cor só pode ser critério explicativo das diferenças sociais existentes entre negros e brancos na medida da existência de uma concepção racial pré-existente, da qual a cor é tributária, e na medida em que foi possível, a partir dela, estabelecer as diferenciações de raça, o que faz com que a cor tenha uma conotação racial irredutível. A partir dessa visão, Guimarães define racismo como “uma forma bastante específica de ‘naturalizar’ a vida social, isto é, de explicar diferenças pessoais, sociais e culturais a partir de diferenças tomadas como naturais.” (Guimarães, 1999, pp. 9-10). Por fim, o autor concebe cor como “um conceito racial, racialmente definido e assim empregado anteriormente ao nascimento da moderna sociologia brasileira.” (Guimarães, 1999, p. 11).

  • Citando Antônio Sérgio Guimarães, Carneiro e Fischmann (2005) pág. 28, afirmando que raça é

    “um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. Trata-se, ao contrário, de um conceito que denota tão-somente uma forma de classificação social, baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais, e informada por uma noção específica de natureza, como algo endodeterminado. Mas por mais que nos repugne a empulhação que o conceito de ‘raça’ permite – ou seja, fazer passar por realidade natural preconceitos, interesses e valores sociais negativos e nefastos, – tal conceito tem uma realidade social plena, e o combate ao comportamento social que ele enseja é impossível de ser travado sem que se lhe reconheça a realidade social que só o ato de nomear permite. (… ) A realidade das raças limita-se, portanto, ao mundo social (…) a noção de raça, neste sentido, difere de outras noções ‘essencialistas’, como a de sexo, por exemplo, embora se preste às mesmas práticas discricionárias e naturalizadoras do mundo social

3.2.8 Fé e contra-fé

  • Ataque/estelionato/bullying baseado na fé:

    • “Você não conseguiu pois não teve fé suficiente”.

    • “A profecia não se realizou pois vocês não tiveram fé suficiente”.

    • “É preciso ter mais fé”.

  • A não-realização do milagre é justificada pela ausência de fé suficiente.

  • Mesmo que o “fiel” acredite, sua fé é considerada insuficiente.

  • E assim a realização do milagre é postergada, perpetuamente adiada, pois a fé insuficiente é convertida numa dívida de ausência de fé que precisa ser eternamente dobrada.

  • Fé então é usada para produzir mais fé: “fervor”.

  • A fé é usada para contrapor qualquer argumento contra a fé: pois trata-se de questão de fé, “se você não ouviu Deus é porque não teve fé suficiente”.

  • A fé torna-se uma espécie de “energia mística”, um recurso universal para subjugar retoricamente qualquer pessoa: “me sinto seguro da minha fé, mas você não, por isso não consegue”.

  • O embate pode ser dado pela contra-fé: ter fé de que a fé está sendo usada para manipular. Mas aí no máximo cria-se um impasse.

  • O melhor é convencer que a fé não pode ter intermediários? Mas mesmo que o “canal de comunicação” entre a pessoa e seu(s) Deus(es) seja direto, há todo um aparato social ainda criando consenso sobre as divindades e o caráter da fé.

  • E no caso que a crença proíbe o questionamento da própria fé? E que, ademais, considere como insulto qualquer questionamento da fé?

  • No entanto, todo “conhecimento prático” parece assentado em algum tipo de fé (inclusive esta afirmação), como única maneira prática de escapar da dicotomia corpo-mente na qual é questionada a essência da realidade. De fato, pode ser que nosso mundo sensível não passe de uma simulação – ou de N simulações, qual a diferença?

    A navalha de Ockham se coloca como um critério de simplificação pragmática, porém ela não nos ajuda a constatar qual é a “realidade” ou “verdade” última. Uma “fé prática” que nos ajude a escapar deste problema mas sem nos colocar num problema (maior?) da fé inquestionél, consiste em assumir, mesmo que temporariamente, que não somos simulações, que o que está à nossa frente realmente está à nossa frente etc.

    Ou mesmo que o fato de sermos simulações ou não é indiferente para o curso da vida – simulada ou não – que nos é imposta/jogada (throwness).

    Indo até mais profundamente, nossos conceitos são todos assentados em votos (mesmo que temporários e questionáveis) de fé, talvez até de fé pública: por exemplo, a existência de pontos geométricos é mesmo um fato ou um mero instrumento conceitual que é forçosamente aplicado à realidade?

  • Isso, aliado à impossibilidade prática de um indivíduo verificar/testar/auditar cada processo, aparato experimental, teorema, conjectura etc impele ou ao isolamento negacionista – que no caso estrito, consistente e ortodoxo implica no afastamento total da sociedade (um ermitão), já que ela não é nada confiável e dela é preciso duvidar completamente – ou, numa posição disposta aos humores da política, participar de votos de confiança contextuais e revogáveis, ou seja, integrar comunidades científicas e de pensamento. A fé passa então a ser uma prática social, com votos de fé e confiança limitados e passíveis de reavaliação, porém sempre esbarrando nos limites duros da capacidade de saber a verdade e realidade “últimas”.

  • O erro é transformar plausibilidade e efetividade em verdade. Narrativas podem ser plausíveis e extremamente aderentes à psiquê. Também podem ser efetivas ao produzirem encontros e acontecimentos. Mas não é por isso que podem ser consideradas como “verdades”.

  • A influência da crença na obtenção dos resultados: afinco. Auto-realidade é um mecanismo de auto-ajuda. Não é nem condição suficiente, muito menos necessária para atingir um objetivo, porém impele “corações e mentes” a darem mais de si em busca dos objetivos.

  • Acreditar: dar crédito, sem cobrar a dívida da explicação.

3.2.9 Os muitos terraplanismos

O Departamento Jurídico do Inferno é sabidamente o mais empenhado em pareceres que semeiam a discórdia. Num dos seus mais últimos estratagemas, elaborou a seguinte questão:

No que o terraplanismo difere da visão cosmológica Yanomami acerca da queda da abóboda celeste sobre o povo?

Ou seja: o quanto essas cosmovisões são parecidas? No que elas diferem?

Para ilustrar, segue uma foto: https://img.socioambiental.org/d/239229-1/yanomami_4.jpg

Tirei-a deste trecho que trata de “desenvolvimento” e epidemia: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Yanomami#O_tempo_do_desenvolvimento

É um retrato muito interessante. Vemos uma montagem de imagens de satélite “chapada” numa folha de papel usando a projeção de Mercator (dos “mercadores”, super eurocêntrica e desproporcionalizadora de territórios) segurada pelo Davi e outro Yanomami.

Davi, um xamâ que segura o céu, estaria, nesta foto, segurando a Terra dos brancos para que não caia na Terra Yanomami?

Note que esta Terra dos brancos já é uma cosmovisão planificante. Mas não é a dos terraplanistas. É a planificação técnico-científica que a Deborah menciona nesse texto e viria até antes de Newton – vide pág. 9, ressaltando que “inércia” não é força e mais uma espécie de “opositora” da força e um conceito inicialmente galileano. Newton o desenvolve e legisla.

O problema seria a cosmovisão em si? Ou a imposição das mesma? Em que sentido que nesta foto a cosmovisão branca não está sendo imposta para os Yanomami? Talvez isso seja bem óbvio para as lideranças Yanomami, que seguram um pedaço de papel como gesto político. Vai saber!

O Feyerabend – que dizem ser anarquista, não sei – polemiza muito bem sobre a “virada galileana”. Se não me falha a memória, no Contra o Método ele afirma que a Igreja não foi simplesmente obscurantista ao levar Galileu a julgamento, mas que a tecnologia de telescópio da época deixava em aberto as afirmações de Galileu e por isso a Igreja não quis arriscar a rever suas posições podendo sofrer descrédito na época, mas ele mostra a Igreja agindo com uma certa racionalidade técnica e não apenas como supressora da propaganda: “a teoria deste cara está certa? Temos como comprová-la? Se estiver, convém nos adiantarmos na revisão dos nossos dogmas?” Algo assim.

É uma polêmica e nisso não tou querendo entrar no revisionismo. Ao contrário, o argumento é sutil: o problema não está na cosmovisão mas na sua instrumentalização direcionada à sujeição, “naturalizando” o outro e por isso retirando sua autonomia. O problema do Um e do n - 1 digamos assim: não só o problema do livro como imagem do mundo como a própria imagem do mundo, a própria cosmovisão…

Vale aprofundar na ideia de virada ontológica perspectivista/construtivista e dar atenção a esse fenômeno terraplanista. É um tipo de rebelião contra um saber científico de tortura da natureza colonial, mas acabam por pender pra esse negacionismo do “desejo de morte e extermínio” que a Deborah Danowski comenta e que também alimenta a máquina colonizadora.

Por isso é importante entrar na questão do anticientificismo: será derrubada a construção iluminista mas o que entra no lugar? Corremos o risco de ver um outro paradigma de tortura sendo instalado ou uma variação do mesmo, mas que agora pende pra um “obscurantismo”? No meio do tiroteio, a bala perdida mais uma vez atinge a “natureza” isto é, aquilo que tá na na disputa para ir ao “açougue” da civilização.

3.2.10 Realidade Diminuída

  • Algoritimização e Realidade Diminuída:
    • Não há computação não instrusiva. Qualquer cômputo altera o ambiente.

    • O experimento (obter info. sobre algo) aumenta a entropia do laboratório (Brillouin).

    • A separação entre dados e código é apenas uma assunção pragmática. Não precisamos ir tão longe num sistema com DNA ou RNA para ver que o cômputo é uma relação complexa.

    • Computo ergo sum moriniano, ??.

    • Portanto algoritmos são agourítimicos.

    • Me perdoem o uso se uma metáfora visual que zoa a noção de machine vision. Proponho que desfoquemos um pouco o olhar para que enxerguemos melhor o que está adiante, que é uma bruma. Ver a bruma com olhos brumados.

    • Para retirar o fetiche e a mistificação atualmente embutidos na palavra algoritmo, sugiro uma pequena mudança temporária, usando para isso um algoritmo que substitua todas as ocorrências da palavra algoritmo por mecanismo. Pronto. (referência e explicação abreviada sobre os dois tipos de mecânica e de qual estamos falando quando dizemos algoritmo).

    • Objeção de que o algoritmo seria a abstração do mecanismo concreto.

    • Reversamente, retornamos à condição anterior aplicando um mecanismo que substitui todas as ocorrências de mecanismo por algoritmo.

    • Algoritmos não produzem sentido de mundo. Subir e descer escadas apenas por subi-las e descê-las produz subidas e descidas. A geração ou destruição de valor está além disso.

    • Parafraseando e pervertendo a a Lei de Elinor Ostrom (“A resource arrangement that works in practice can work in theory”), diríamos que “O que funciona na prática vai funcionar na teoria”. Consequentemente, o que pode ser construído pode ser justificado teoricamente. Ocorre que a justificação teórica pode conter tanto afirmações compatíveis mas não necessariamente constituindo verdades últimas sobre o objeto construído quanto pode conter afirmações que justificam a necessidade de que o mundo seja composto dos objetos construídos, excluindo outras possibilidades.

    • Equivale à chamada “Lei sem Nome” que um dia recebi num fortune(5) cookie:

      Unnamed Law: If it happens, it must be possible

    • Exemplo: “o Universo é uma Máquina de Turing”, hipótese costumeiramente justificada pela suposta universalidade das chamadas “Máquinas Universais de Turing”.

    • Essa febre não vai passar até converter o mundo na doença que ela quer curar.

    • O algoritmo não descreve o mundo. Por exemplo: não descreve a si e depende se um sistema lógico pré-existente para rodá-lo.

    • GAFAM+ e o consórcio civil-militar cujo testa de ferro atualmente (2021) são governos locais com fantoches do tipo Bolsonaro que fazem parte do mesmo processo. Não são opostos mas sim complementares. Google, Democratas, Republicanos etc são partes desse processo.

    • Agora falemos um pouco de controle. Com os agouritmos, induz-se controle pela gestão do comportamento. Onde antes seria difícil controlar, a redução da Variedade torna tudo mais fácil.

    • Acontece que não há um único ator concentrando controle, como no filme Alphaville de Godard. Há uma série de entidades estatais ou privadas empacotando o controle comportamental para compra e venda.

    • “A verdade está no código”: mas uma verdade que não é fato essencial e sim fato produzido, autorrealizado pela execução do próprio código.

  • Profecia autorrealizável é uma questão tecnológica:
    • “Realizável” porque depende do factível, da capacidade técnica e das contingências do mundo.

    • Agouritmo: o campo de extermínio “demonstra” que o humano é apenas pele e osso.

    • O exemplo da pedra:

      • A pedra quadrada: “o quadrado já estava presente na pedra”.

      • Trecho “The Lewis Carrol Way” do filme Week End de Godard (~00:44:02).

  • Profecias autorrealizáveis:
    • Combate à criminalidade.

    • A Profecia e a Gosma:

      • Profecia auto-realizável, ou somente “auto-realidade”.

      • Também não chamemos de “nuvem”, mas de “gosma”, a la Bill Joy e o filme The Stuff.

      • Não aceite o resultado auto-realizado pela derrota antecipada: isso é o que a tortura produz: o desamparo induzido.

      • Desamparo: a “derrota” é a condição de partida, assim como o “não” que temos antes de lutar por um “sim”.

      • Já estamos funcionários precários da gosma (“nuvem”), voluntária ou involuntariamente.

3.2.11 Desconstruções

  • Vou utilizar minha (de)formação ocidentalizante a nosso favor para apoiar em diversos entendimentos sobre os processos de extração que sofremos.

  • Aproveitarei também uma perspectiva vinda de alguém que pratica a programação de software há muitos anos.

  • A bagagem usada aqui será bem ocidental, grega, talvez helenística, focando no pensamento do anti-democrata Platão, em duas passagens de obras distintas que são definidoras de alguns aspectos do que será chamado séculos depois de “algoritmo”:

    • O processo de exponenciação do crescimento das cidades-campo (Politéia, vulgo República) como alegoria para os processos de extração.

    • O estadista que fala ao pé do ouvido o que as pessoas devem fazer (Politikus, vulgo O Estadista), como alegoria para o que hoje é comumente chamado de “Inteligência Artificial”.

  • Para isso:

    • Tentarei mostrar como algoritmos no sentido contemporâneo podem estar associados a um tipo de colonialismo, mas que talvez não se restrinjam ao que se chama de “digital” e nem sejam exatamente novos…

    • Farei em breves colocações que ajudem no desarmamento de vários conceitos-bomba antes que produzam mais explosões e estilhaços.

3.2.12 Morfia

  • Discussão sobre forma no próximo texto, Cap 4.

  • Discussão sobre morfismos no ensaio “Máquinas de Estado” (atualmente no Capítulo sobre o Leviatã?).

  • Quero situar a computação/amputação como parte de processos de transformação, isto é, processos de mudança de forma, ou processos mórficos, especialmente

  • Para então revelar que há uma brutal isomorfia entre colonialismos da mente, do corpo, do território e da própria computação. naqueles que algumas pessoas costumam chamar de isomorfia.

  • O par computação/amputação, então, ao criarem determinadas ordenações, implicam em alterações de forma nos corpos, sejam eles territoriais, viventes, líquidos e por quê não também dizer mentais?

  • Dizemos por isso que a computação/amputação são processos mórficos.

  • Não discutirei aqui a noção de forma, muito mesmo forma em Platão.

  • Quero apenas pontuar que os processos computacionais são mórficos.

  • Mas onde é que essas formas são definidas?

  • Isomorfia: mesma forma ou relação equivalente/equipolente? (homeomorfia?)? Requisito de relação topológica.

3.2.13 Antropomorfia

  • Antropomorfia, quando as formas são aproximadas ao que se entende de humano ou quando o humano é a forma báscia a partir das quais quaisquer outras formas são comparadas.

  • Máquina de Estado-Capital versus Natureza.

  • Ao menos neste momento, não falarei de “humanização” ou “desumanização”, mas de antropomorfização seletiva dos seres: nos processos psíquicos, alguns ganham características antropomórficas, outros não ganham ou mesmo perdem.

3.2.14 Computomorfia

  • Civilização como computação territorial.

  • O que ocorre na mente e o que ocorre no território.

  • A Máquina Colonial degrada o mundo todo, mas veja que “lindo”, você poderá poder visitar a floresta na “realidade virtual”, “então foda-se”, né? “Pode queimar tudo que a gente substitui por um algoritmo simulando a sensação, como que era antes do maquinário foder com tudo pra possibilitar a simulação degradada do passado idílico”, numa simulação de alto custo energético e que demanda uma contínua expansão do maquinário para se “sustentar”.

3.2.15 Algoritmização

  • Aqui não entrarei aqui no debate do que é a mecânica e nem na polêmica entre organismo versus mecanismo – que para mim é uma falsa questão sob o ponto de vista materialista, sendo mais importante a questão da previsibilidade versus imprevisibilidade.

  • Algoritmo versus Mecânica: argumentação contra o (ou de desconstrução do) uso do conceito de “algoritmo”:

    • O conceito de “algoritmo” é mais idealista. Pode ser bem mistificador.

    • O de mecânica é materialista e suficiente para descrever os processos.

    • Neste momento, não entraremos no conceito de mecânica e nem na questão de que ele não é intuitivo, universal ou apropriado, necessitando também de desconstrução, o que já fiz num outro momento.

  • Um algoritmo poderia ser um gesto de mãos, onde o corpo é entendido como a maquinaria mais imediata: há um movimento mecânico da mão, e o gesto seria seu algoritmo?

  • Richardson: modelos preditivos: previsão do tempo baseada num mundo demarcado em grades (discretização) (década de 1920). À beira do “caos determinístico” numérico que será formulado nos 1960s.

  • Algoritmos são discretos e impõem isomorfias com o mundo.

  • De Landa: descreve a transferência, retirada ou mesmo extração da “inteligência” (mecânica do tipo X) das pessoas para outros tipos de maquinaria.

  • O algoritmo seria como a “forma ideal”, isomórfico com o que sua respectiva operação mecânica realiza.

3.2.16 Agouritmização

  • Seção 3.2.10 das anotações/ensaio.

  • Exemplos de agouritmo, incluindo as previsões de comportamento social que influem nesse comportamento – S. H.-H. Y. Varoufakis (1995) – assim como as predições-gestões de comportamento para obtenção de retornos garantidos –

    Zuboff (2019).

  • Agouritmo autorrealista: psico-história das Fundações asimovianas.

  • Da mesma forma, o agouritmo do sistema de empobrecimento-encarceiramento pode induzir pessoas a cometerem o que é enquadrado como delitos e ao mesmo tempo ser usado para justificar seu uso afirmando que pessoas tendem “naturalmente” a práticas ilícitas.

  • Exemplo: um agouritmo que produza e gerencie pessoas robotizadas, deprimidas e viciadas pode ser usado para justificar seu uso, afirmando que pessoas são apenas robôs deprimidos e vicidados que necessitam do agouritmo para viver. Se pessoas estiverem nessa condição, terá sido obra do agouritmo e não necessariamente por uma suposta inclinação natural das pessoas.

  • Ranga Yogeshwar: “Os dados que você entrega acabarão por estrangulá-lo no sistema”: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/16/tecnologia/1539702580_437926.html

  • “CAD” enquanto Computer Aided Destruction.

3.2.17 Condução: Alegoria do Pé do Ouvido

  • Seção 4.3.1.9 das anotações/ensaio.

  • Pé do ouvido: imagem primitiva de uma inteligência artificial; todas as possibilidades permanecem incalculáveis o o conhecimento total segue inatingível, mas a nova forma de “inteligência” baseada no cálculo discreto (algoritmo) rápido orientados a uma produção específica de futuro.

3.2.18 Os Programas, segundo Malatesta

  • Design e produção de sistemas em Malatesta (1897), onde é feita uma distinção importante entre buscas por verdades e produção de realidade, o que é fundamentalmente distinto das previsões-projeções-predições agourítmicas:

    Seria perfeitamente justo se se tratasse de estudantes que procuram a verdade, sem se preocuparem com as aplicações práticas. Um matemático, um químico, um psicólogo, um sociólogo podem dizer que não há outro programa senão o de procurar a verdade: eles querem conhecer, mas sem fazer alguma coisa. Mas a anarquia e o socialismo não são ciências: são proposições, projetos que os anarquistas e os socialistas querem por em prática e que, conseqüentemente, precisam ser formulados como programas determinados. A ciência e a arte das construções progridem a cada dia. Mas um engenheiro, que quer construir ou mesmo demolir, deve fazer seu plano, reunir seus meios de ação e agir como se a ciência e a arte tivessem parado no ponto em que as encontrou no início de seu trabalho. Pode acontecer, felizmente, que ele possa utilizar novas aquisições feitas durante seu trabalho sem renunciar à parte essencial de seu plano. Pode acontecer do mesmo modo que as novas descobertas e os novos meios industriais sejam tais que ele se veja na obrigação de abandonar tudo e recomeçar do zero. Mas ao recomeçar, precisará fazer novo plano, com base no conhecimento e na experiência; não poderá conceber e por-se a executar uma construção amorfa, com materiais não produzidos, a pretexto que amanhã a ciência poderia sugerir melhores formas e a indústria fornecer materiais de melhor composição.

  • Segundo Malatesta, tratam-se de programas distintos, mesmo que relacionados: um é o programa da busca do conhecimento, outra coisa é um programa para construir algo, ou chegar a um tipo de organização social. Os programas não são tão estanques como Malatesta coloca: o programa de engenharia, do socialismo e da anarquia depende de conhecimentos sobre o mundo, e estes estão sempre em mudança e são cheios de vieses. Ainda assim, importante o reconhecimento de Malatesta sobre essa distinção.

3.3 Miscelânea

  • Matemática e cálculo:

    • Estão para além do discreto. Mas tem sido construídos a partir deste.

    • Cálculo numérico: é um “recorte” pragmático da matemática: operações mecânicas com resultados definidos porém não necessariamente precisos: mesmo e principalmente na mecanização existem erros.

    • Discretização: discreto e discricionário.

    • Previsão e predição.

  • Computação:

    • Computação ocorre no corpo, na mente, no território e inclusive nos chamados objetos técnicos.

    • Desde ao menos a agrimensura.

  • “Ciudadanos reemplazados por algoritmos”, Canclini (2019).

  • “Program or Be Programmed: Ten Commands for a Digital Age”, Rushkoff (2010).

  • “Colonialismo digital: Por uma crítica hacker-fanoniana”, Faustino e Lippold (2023).

3.4 Referências

3.4.1 Algoritmo

  • Al-Khwarizmi - Wikipedia, incluindo:
    • Nota de rodapé 1:

      There is some confusion in the literature on whether al-Khwārizmī’s full name is […] Abū ʿAbdallāh Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī or […] Abū Ja’far Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī. Ibn Khaldun notes in his Prolegomena: “The first to write on this discipline [algebra] was Abu ‘Abdallah al-Khuwarizmi. After him, there was Abu Kamil Shuja’ b. Aslam. People followed in his steps.”[4] In the introduction to his critical commentary on Robert of Chester’s Latin translation of al-Khwārizmī’s Algebra, L.C. Karpinski notes that Abū Ja’far Muḥammad ibn Mūsā refers to the eldest of the Banū Mūsā brothers. Karpinski notes in his review on (Ruska 1917) that in (Ruska 1918): “Ruska here inadvertently speaks of the author as Abū Ga’far M. b. M., instead of Abū Abdallah M. b. M.” Donald Knuth writes it as Abū ’Abd Allāh Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī and quotes it as meaning “literally, ‘Father of Abdullah, Mohammed, son of Moses, native of Khwārizm,’” citing previous work by Heinz Zemanek.[5]

      – Acessado em 26/06/2024

Bibliografia

Busch, Lawrence. 2011. Standards: Recipes for Reality. Infrastructures. MIT Press.
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  1. (TODO?)↩︎

  2. Schwarcz e Starling (2015), Introdução.↩︎